A Divindade do Messias

É claro que sempre que o Messias aparece ele acaba por ser o agente do Deus de Israel. Isso deve ser claramente distinguido de qualquer sugestão de que ele foi em si mesmo uma figura transcendente, existindo de modo sobrenatural dominador do espaço e do tempo. Este Messias era esperado para vir da tribo de Judá e da linhagem real do rei Davi. As genealogias de Mateus e Lucas, de fato, inclui Jesus entre os descendentes de Davi (Mt 1.1, 6; Lc 3,31).

Jesus foi um homem como nós, sujeito ao ambiente humano tanto quanto qualquer um de nós. Certamente por não entenderem o que seja uma pré-existência no céu com o Pai ajude aos apologistas da cristologia tradicional desaparecer com sua experiência humana a um ponto de colocá-lo muito além da capacidade de se relacionar com qualquer um de nós. Como poderia então ser ele o descendente de Abraão em Hebreus 2:16-18 ou o “homem nascido de mulher” de Gálatas 4:4?

Se Jesus foi humano de uma maneira diferente de nós, onde estaria a validade das comparações entre ele e Adão? De acordo com  Romanos 5:12-21, por um homem entrou o pecado no mundo, e, portanto, para que houvesse justificação, a redenção teria que vir por outro homem, outro Adão.  O que é enfatizado repetidas vezes é que o Messias foi como um de nós, intimamente relacionado com aqueles a quem ele deve resgatar. Em parte alguma neste contexto deve ser exigida qualquer nuança de divindade.

Da mesma forma é 1 Coríntios 15:21 “Porque, assim como por um homem veio a morte, por um homem veio também a ressurreição dentre os mortos“. O que se segue é outra comparação entre Jesus e Adão. Não seria realmente justo sendo Adão um homem simples e Jesus a encarnação da divindade.

A propósito, como esse tipo de refutação e argumentos inevitavelmente geram perguntas, e perguntas extremamente complicadas, tenho aqui algumas. Por exemplo: Quando Deus aparentemente abandonou seu Filho na cruz, quem ele abandonou, um homem completo ou um corpo humano com o centro pessoal abarrotado de divindade? Será que foi apenas uma questão do “Deus Filho” entregando o corpo humano e retornando para a existência que gozava antes de ser ‘encarnado’ nele mesmo?

Vamos examinar um problema. Quem morreu na cruz? Se foi uma divindade, então não é o sacrifício perfeito. Ninguém em total divindade, sendo 100% Deus, poderia expiar os pecados de toda a humanidade ou atender às exigências do sacrifício. E se aquele que morreu na cruz era Deus, então Deus ficou morto por “três dias”? É consistente com o Antigo Testamento expressar algo desse tipo? E se o Doador da Vida foi mesmo morto, quem mais poderia trazer de volta à vida? Quem cuidou do universo antes da ressurreição de Jesus – Deus?

Infelizmente são perguntas geradas por causa do ensino herético que a cristologia tradicional desenvolveu.

A maioria dos estudantes da Bíblia diz que Jesus era divino quando aqui andou, mesmo considerando que ele era um mortal. Outros, geralmente limitam o termo “divino” como aplicado a Jesus só depois de sua ressurreição, pois eles misturam o significado de “divino” com a “imortalidade” no reino do espírito. Porém, eu acredito que as Escrituras indicam que um maior uso dos termos “divindade” e “divino” podem ser aplicados. Há um sentido bíblico em que Jesus como um ser humano poderia ser visto como divino por causa do domínio, de levar o nome de Deus e agir na autoridade de Deus.

Em alguns casos as palavras hebraicas EL e ELOHIM são usadas no sentido de ser divino exclusivamente para seres espirituais, como no Salmo 8:5. No entanto, os hebreus também usaram as palavras que designam divindade em um sentido de potência especial, mesmo dos seres humanos.  Moisés foi feito, não um ser divino, mas divino, poderoso para o Faraó do Egito, e também para Arão, quando o Senhor falou que Moisés lhe seria por Deus, ou porta-voz de Deus (Êxodo 4:16; 7:1). Assim Moisés pode ser referido como um ser humano divino.

O termo Ha Elohim é aplicado aos juízes de Israel como um corpo de homens, não como seres espirituais (Êxodo 21:6; 22:8, 9, 28 [Ver Atos 23:5], de modo que estes homens poderiam ser referidos como “divinos”, embora humanos. Além disso, no Salmo 82, os termos EL e ELOHIM estão sendo aplicadas para os filhos humanos de Deus. Assim eles poderiam ser referidos como divinos, mesmo sendo humanos. Em cada um desses casos, os seres humanos poderiam ser “divinos” por causa de poderes especiais, como também por causa da própria missão dadas a eles por Deus.

Da mesma forma, a Jesus, como ser humano, foi dado poderes especiais para realizar várias obras e milagres, e para falar no lugar do único Deus verdadeiro. Portanto, neste sentido, Jesus também pode ser referido como divino, poderoso, até mesmo como um ser humano.

É claro que, depois de sua exaltação (Atos 2:33; 5:31; Filipenses 2:9), ele agora é literalmente divino, (1 Coríntios 15:45) sendo maior do que os anjos (Hebreus 1:3, 4), que também são chamados elohim – seres divinos, Salmo 8:5; Hebreus 2:7.

Uma observação digna de nota é Hebreus afirmando categoricamente que o Senhor Jesus após sua ressurreição foi feito maior que os anjos,

O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles”.  Hebreus 1:3, 4

Jesus tinha a natureza divina enquanto era um ser humano? Não! Jesus não poderia ter a divindade exigida por muitos, pois o mesmo livro de Hebreus também afirma que nessa condição ele foi feito menor que os anjos.

Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos”. Heb 2:9

O escritor, o apresentando em sua paixão e morte, declara sua condição humana lembrando em suas palavras do homem que aqui andou, quando enfatiza sobre “aquele Jesus”.

Necessário dizer aqui que Jesus não foi feito um pecador, como toda a humanidade tem sido através de Adão (Romanos 5:19), nem mesmo viu a corrupção a qual toda a humanidade participa através de Adão (Eclesiastes 1:15. Jesus nunca se corrompeu, mesmo que tenha sofrido sob o cativeiro da corrupção (Romanos 8:23), à semelhança da carne do pecado (Romanos 8:3). Ele morreu, o justo pelos injustos (1 Pedro 3:18). É digna de observação essa ênfase, o homem justo pelos homens injustos, o que não haveria necessidade de citar se ele fosse mesmo Deus. Assim, só Jesus, que permaneceu obediente até a morte, poderia oferecer ao Altíssimo um sacrifício pelo pecado. (Romanos 8:3 ; Efésios 5:2 ; Hebreus 9:14; 0:10 , 12 , 14 , 18). Jesus fez provar por si mesmo a incorruptibilidade pela sua perfeita obediência e, assim, ele trouxe vida e imortalidade através das boas novas. (2 Timóteo 1:10). Esta é a base para a crença em Jesus, e, portanto, a base para o verdadeiro cristianismo.

Se, por outro lado, Jesus foi o Altíssimo e divino na carne, como muitos afirmam, então nenhum resgate foi fornecido, pois ele é julgado por muitos como perfeito porque era Deus. Em outras palavras, isso significa dizer que Jesus venceu como Deus provando que só uma divindade poderia obedecer as leis de Deus para o homem. Isso gera problemas para Deus, pois implica afirmar que Ele  errou em dar ao homem uma lei de comando que não poderia ser obedecida, o que faria dele injusto em condenar toda a humanidade por não obedecer essa lei. Na verdade, essa teoria de que houve obediência porque Jesus era divino perfeito, falha, pois se fosse dessa forma Ele não teria “condenado o pecado na carne” (Romanos 8:3), a carne de Adão, que era a carne dele próprio.

Apesar de tudo, muitos ainda dizem que Jesus tinha uma natureza dual, que era 100% homem e 100% Deus. O problema é que ninguém explica o que aconteceu com a parte humana de Jesus se ele era 100% divino. Onde estava a natureza humana de Jesus se ele e Deus eram um?

Alguns complicam ainda mais quando garantem que Jesus era mesmo o logos eterno habitando seu corpo, o próprio Espírito de Deus, caso em que Jesus não teria sido “totalmente” humano – o que aconteceu ao espírito deste homem? A humanidade de Jesus não é contestada por ninguém.  Alguém pode explicar: Se Jesus é totalmente Deus, então Deus é totalmente homem? A teoria do Deus-homem total é impossível explicar com sinceridade.  Por outro lado, entendemos, literalmente, que divindade alguma pode habitar na carne,

Dan 2:11  “Porque o assunto que o rei requer é difícil; e ninguém há que o possa declarar diante do rei, senão os deuses, cuja morada não é com a carne”.

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