Abraao

A chamada Ortodoxia Cristã defende ter sido Jesus o próprio Deus em pessoa quando esteve neste mundo; afirmam que o grego ego eimi, “eu sou”, é uma técnica de linguagem intencional implementado por Jesus para invocar o nome de Deus e identificar-se como o Senhor Deus. Quando Jesus disse: “Eu sou”, neste contexto [João 8:58], deve ser entendido para ser uma citação de referência a Deus para Si mesmo como EU SOU em Êxodo 3:14.

Nesse versículo, segundo os trinitarianos e segundo a maioria de nossas versões modernas, quando Moisés perguntou o nome de Deus, Deus teria respondido: “EU SOU O QUE EU SOU” e, em seguida, disse, É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês“.

A Septuaginta foi uma tradução do Velho Testamento em hebraico para o idioma grego. Como ela verteu a passagem de Êxodo 3:14? A expressão hebraica “Ehye asher ehye” de Êxodo 3:14 foi traduzida em grego na septuaginta por: ἐγώ εἰμί ὁ ὤν (Ego Eimi Ho On). Em português essa expressão seria algo próximo de “Eu sou (ego eimi) aquele que é (Ho On)”.

O texto todo de Êxodo 3:14, segundo a Septuaginta fica dessa forma: “E disse Deus a Moisés: Egō eimi ho ōn (Eu sou aquele que é). Assim dirás aos filhos de Israel: Ho ōn apestalken me pros hymas (Aquele que é me enviou a vós).”

O que Deus disse para Moisés, que Ele era o “Eu Sou” (ego eimi) ou Ele disse que era “Aquele que é” (Ho on)?

Deus não estava dizendo “Eu sou Eu sou.” A frase “Eu sou o que sou”, literalmente, significa “Eu sou aquele que é“. Deus estava dizendo a Moisés que o nome que ele deveria dar aos filhos de Israel é “Aquele que é“, e não “eu sou o que sou“. A frase “eu sou”, simplesmente é inserida no texto para identificação de quem é nomeado. Ou seja, é como se um enviado perguntasse a autoridade que o envia, o seu nome para identificação posterior. Seria uma construção textual semelhante a essa: “como eu poderia identificá-lo ao me encontrar com as pessoas que devem receber vossa mensagem?” O indagado simplesmente responde: “Eu sou Carlos, diga-lhes que Carlos o enviou“. O menssageiro jamais poderia chegar aos endereçados e dizer que “EU SOU Carlos me enviou a vós“, mas apenas dizer que Carlos o enviou. O verso tem a expressão “Eu sou”, mas ela não identifica o nome de Deus. A expressão só é usada para Deus complementar dizendo que era HO ON. Deus diz que é “Ho on”, não que ele é “Ego eimi”.

E mais uma vez: No grego da Septuaginta está escrito egō eimi ho ōn (“Eu sou Aquele que é/o Ser”) e não egō eimi ho egō eimi (“Eu sou o que Eu Sou”). Deus pede a Moisés para identificá-lo como ho on (“Aquele que é/o Ser”). Nem sequer volta a aparecer ego eimi nesta cláusula.

Deus, em Ex 3.14 não disse ser um certo “Ego Eimi” (eu sou), ele disse ser “Aquele que é” (ho On), a ideia foi dizer “Eu sou AQUELE QUE É”, tanto é que quando Moisés perguntou o que diria quando fosse indagado sobre quem o enviou, Deus manda Moisés responder “HO ON (AQUELE QUE É) me enviou a vós”, Ele não disse “Ego Eimi” me enviou a vós”.

Portanto, Jesus não reivindicou este título. Observem o texto: “Disse lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fosse eu sou”. Se Jesus quisesse fazer alusão ao “ὁ ὤν” (ho On) de Ex. 3.14, teria usado a idêntica construção, e não precisaria tomar por base a existência de Abraão.

“O problema é que há traduções que verteram HO ON como “AQUELE QUE É” na primeira ocorrência e o mesmo HO ON como “Eu Sou” na ocorrência seguinte. A expressão HO ON não está em Jo. 8.58. Todos os livros e comentários que você já leu, digo com simplicidade e sem medo de errar, estão equivocados quando tentam comparar João 8.58 com Ex. 3.14 dizendo que Jesus é o EU SOU do Antigo Testamento, porque simplesmente as construções são diferentes. Se considerarmos o hebraico, que é a língua em que originalmente foi escrito o livro de Êxodo ai é que se descarta mesmo, porque a construção verbal do hebraico, daquela passagem, é causativa e em João é, seguramente, grego no presente do indicativo ativo. Se for os dois em grego, um é particípio e o outro presente do indicativo ativo.

Vamos, para ficar didaticamente mais visível, dividir o verso de Êxodo em duas partes: A + B.

A) “καὶ (e) εἶπεν (disse) ὁ θεὸς (Deus) πρὸς (a) μωυσῆν (Moisés) ἐγώ (eu) εἰμι (sou) ὁ ὤν (AQUELE QUE É).

Pergunto o seguinte: Deus em “A” disse ser “ego eimi” ou Deus disse ser “HO ON”?

B) καὶ (e/também) εἶπεν (disse:) οὕτως (assim) ἐρεῖς (dirás) τοῖς (aos) υἱοῖς (filhos [de]) ισραηλ (Israel) ὁ ὢν(AQUELE QUE É [aqui, desuniformemente as Bíblias vertem para EU SOU, donde decorre a associação com Jo.8.58]) ἀπέσταλκέν με (enviou-me) πρὸς (a) ὑμᾶς (vós).

A pergunta que faço agora é a seguinte: Moisés identificou Deus, em “B”, como “ego eimi” ou como “HO ON”?

Onde está a expressão “ego eimi” na parte “B” para os tradutores verterem “EU SOU” ao invés de “AQUELE QUE É”? Percebamos que não existe um “ego eimi” nessa parte e que estranhamente, praticamente todos os tradutores colocam nessa parte “B” a tradução como “Eu sou me enviou a vós”? E a Bíblia de Jerusalém ainda faz mais e coloca em maiúsculo “EU SOU me enviou a vós?” Quando o procedimento uniforme seria “AQUELE QUE É me enviou a vós”.

Ora, se “ego eimi” significa “eu sou” e “HO ON” significa “eu sou” exatamente com a mesma semântica, então, a parte “A” deveria ser traduzida por “Disse Deus a Moisés: Eu sou Eu sou” (ego eimi ho on[?]), e ai teríamos, ao menos, uniformemente na segunda com “Eu sou me enviou a vós”. Mas se HO ON é traduzida por “AQUELE QUE É” na parte “A” não há razão para não ser, também, na parte “B” pela mesma expressão, a não ser que haja a intenção de criar a associação que os trinitários hoje defendem” (1).

Portanto, esse teoria mirabolante de que Jesus disse “Eu Sou” para afirmar que ele é Deus não tem fundamento nem mesmo nas Escrituras. Provavelmente Jesus não falava o grego, e muito menos estava falando em grego para os fariseus. Será que esses significados em grego apontados pelos trinitarianos refletem o que Jesus falou?

A afirmação de Jesus, “eu sou”, foi construída em grego. A declaração do Senhor em Êxodo 3:14 foi em hebraico. As duas línguas não são apenas muito diferentes umas das outras, mas as duas declarações também não são as mesmas. “Eu sou” não é o mesmo que o terrivelmente mal traduzido “eu sou o que eu sou”.

Vamos analisar os versículos anteriores a este: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu o, e alegrou se“, v. 56. Os judeus estavam distorcendo as palavras de Jesus: “Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?” Jesus não disse isso. Foi o contrário: Abraão viu Jesus e não Jesus viu Abraão. Então, vem o verso chave: : “Disse lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fosse eu sou”, João 8:58. Se traduzimos a última parte do versículo como “Eu sou antes de Abraão” podemos ter um significado completamente oposto ao da nossa envelhecida ortodoxia cristã. Nesse caso, o texto não diz que Jesus era preexistente, e muito menos diz que ele usou uma técnica de linguagem intencional para se igualar ao Deus de Israel.

São dois sentidos aqui. O primeiro, ao Jesus dizer que “antes de Abraão existir Eu sou”, pode significar que ele foi conhecido antes da fundação do mundo como o cordeiro que foi morto nos propósitos de Deus como também foi profetizado em Gênesis 3:15 e nas palavras de 1 Pedro 1:20. Pedro diz: “Ele foi conhecido antes da fundação do mundo, mas manifestado nesses últimos tempos por amor de vós”. Ele foi predestinado a vir desde antes da criação do universo. Era o Messias anunciado e predestinado a vir desde sempre, portanto antes de Abraão. O outro significado vai ser exposto mais adiante.

Um título ou um verbo?

Os trinitarianos dizem que os Judeus entenderam perfeitamente que Jesus estava afirmando ser Deus quando ele usou as palavras “ego eimí”, porque eles imediatamente pegaram pedras para matá-lo. Mas os trinitarianos não consideram que os Judeus já haviam decidido matar o Senhor Jesus antes desse impasse em João 8:58. Leia João 7:1, 25.

Além disso, a expressão em grego “ego eimí” em João 8:58 utiliza o pronome pessoal acompanhado de um verbo, que é o verbo “ser”. “Eu sou” NÃO É UM TÍTULO. Semelhantemente o “eu sou” (“ego eimí”) em Êxodo 3:14 não constitui um título. O título usado por Deus nesse texto é “Ho On” (“Aquele que é”). Um verbo caros leitores, apenas um verbo, o verbo SER.

Alguém escreveu sobre isso com muita sabedoria: “Se em João 8:58 Jesus tivesse dito: “Eu sou o EU SOU”, ou “Eu sou o Ser”, ou ainda “Eu Sou Aquele que é ”, seria diferente. Mas ele fez um uso simples e comum na língua grega, do verbo ser. É muito arriscado divinizar uma expressão grega, mesmo quando sai da boca do Mestre.

Por que transformar uma expressão de uso corriqueiro num carregado título teológico? Todo esse conjunto de teorias recaem, como sempre, na esfera da incerteza, porque não seguem a regra bíblica de ‘não ir além do que está escrito’. E tais teorias gozam de grande credibilidade entre muitos cristãos, e estimulam declarações pouco analisadas e ponderadas, transformando algo que é duvidoso em algo “inquestionável”. Para muitas pessoas que formam os rebanhos das igrejas, é muito comum o pensamento: “Se os doutores, teólogos e filósofos acreditam assim, quem sou eu para discordar?” No entanto, uma simples leitura atenta é suficiente para desmontar uma teoria humana, ou, pelo menos, para mostrar que a coisa não é tão sólida quanto alguns pensam ” (2).

Eu sou, Eu sou e Eu sou

Se “ἐγώ εἰμι” era o título sagrado de Deus o Todo Poderoso, porque somente no versículo 58 os judeus tentam apedrejar Jesus? Porque não tentaram apedrejá-lo depois dele dizer no versículo 24 do mesmo capítulo: “se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”? Não seria uma ótima oportunidade para os Judeus acusarem Jesus de blasfêmia por aplicar a si mesmo o título de Deus? Isso mostra que ἐγώ εἰμι não foi o fator determinante para provocar essas reações ambíguas. O problema foi com Abraão.

Veja com mais detalhes dentro do mesmo contexto: “Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo. Eu disse que vocês morrerão em seus pecados. Se vocês não crerem que EU SOU, de fato morrerão em seus pecados. Diziam-lhe então, quem és tú”, João 8:23,24.

Os judeus não acharam que Jesus estava dizendo que era o Deus de Israel. Ao contrário de Êxodo 3:14, a expressão eu sou não está sendo usada com função de nome identificador, tanto é que não causou reação nos judeus. É tão evidente que esse não era o caso, que quando Jesus disse eu sou, os seus opositores perguntaram em seguida, quem és tu?

Se falar eu sou significasse uma auto identificação não haveria necessidade dessa pergunta, e os judeus já teriam corrido para pegar pedras e atirar em Jesus. E não podemos ignorar também o verso 28, que enfatiza de forma clara a reclamação trinitariana de Jesus como EU SOU. Veja o texto: “Então Jesus disse: Quando vocês levantarem o Filho do homem saberão que EU SOU, e que nada faço de mim mesmo, mas falo exatamente o que o Pai me ensinou”. A construção textual é incrivelmente provocadora, mas os trinitarianos a abandonaram. Por qual motivo? Talvez porque não houve ameaça de apedrejamento. Não se vê nenhuma reação dos judeus.

Na sensível mente deles, não houve rejeição ao que Jesus falou. Pelo contrário, o versículo seguinte relata que muitos JUDEUS creram nele: “Tendo dito essas coisas, muitos creram nele”. Depois disso o relato prossegue de forma contínua. Mas, em determinado momento algo muda em João 8:57,58: “Disseram-lhe, então, os judeus: Não tens ainda cinquenta anos e viste Abraão? Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade, vos digo: antes que Abraão existisse, EU SOU. Então apanharam pedras para atirar nele”.

Os Judeus constantemente corrompiam as palavras de Jesus. Isto é, eles as entendiam de forma equivocada (João 3:3,4). E se comportaram da mesma maneira no contexto de João 8:58. Possívelmente eles entenderam que ele estava alegando superioridade a Abraão. Se considerarmos que Jesus usou as palavras “Eu sou antes de Abraão”, ou “Eu tenho sido antes de Abraão”, ele pode ter causado um rebuliço total na mente dos judeus levando-os a acreditar que ele declarou ser maior do que Abraão.

Lembre-se que Jesus se declarou mais importante – maior – que o templo em Mateus 12:6, “aqui está quem é maior que o templo”. E também maior do que Salomão: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão”.

“Jesus estava sendo ameaçado de apedrejamento pelo que ele teria dito sobre Abraão. Dizer que “Sou antes” (entendido pelos judeus como “mais importante”, “superior”, “maior”, acréscimos meus) de Abraão seria considerado injúria, visto que os Judeus encaravam tal ancestral como o “Pai” da nação (Ver João 8:39). Além disso, o significado de blasfêmia na bíblia vai muito além do que apenas dizer algo contra Deus. Era considerado blasfêmia algo que ofendesse algum maioral da nação (Ver Êxodo 22:28)” (3).

No contexto de uma perseguição anterior a Jesus ficou claro “para os judeus” que Ele era um blasfemo e se faz igual a Deus, isto é, fazendo-se igual a Deus porque se declarava Filho de Deus (João 5:18), o que, obviamente, não o fazia igual a Deus apenas por chamar Deus de seu Pai. Seria, portanto, razoável concluir que para a maioria dos ouvintes, as palavras de Jesus em “Eu sou antes de Abraão” não eram algo totalmente inesperado, mas confirmavam sua suspeita e até a convicção de que Jesus era mesmo um blasfemo. Para eles era uma teologia sacrílega; e é claro que Jesus conhecia suas expectativas e medos sinistros quando pronunciou intencionalmente aquelas palavras absolutamente provocativas. Isto é, foi uma “blasfêmia” intencional de sua parte, a fim de revelar sua identidade, não sua divindade.

Observe que quando Jesus disse “antes que Abraão existisse, eu sou” ele estava respondendo aos judeus duas perguntas que foram feitas em dois versos anteriores. A primeira está no versículo 53: “Porventura és tu maior do que nosso pai Abraão…?” A outra está no verso 57: “Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?”

Podemos, como já disse, ter dois significados nas palavras de Jesus em João 8:58 quando ele alega, “Eu sou antes de Abraão“: O primeiro é que ele era o Messias que havia de vir e estava nos planos de Deus antes mesmo de existir de fato: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste ANTES da fundação do mundo“, João 17:24.

Observem, mais uma vez, que o “Cordeiro de Deus” tinha sido “crucificado antes da fundação do mundo” (Ap 13:8, NVI), sendo que, evidentemente, o que ocorreu de forma não literal, pois Jesus foi crucificado em 33 dC sob o governo de Pôncio Pilatos, mas no plano de Deus desde antes da fundação do mundo. Desta forma também Jesus “era” antes de Abraão. Assim Abraão podia olhar para frente, para a vinda do Messias e seu Reino. O Messias e seu reino, portanto, “preexistiam” no sentido de que eles foram “vistos” por Abraão através dos olhos da fé. Antes que Abraão nascesse Jesus tinha sido “conhecido” (cf. 1 Ped. 1:20). Jesus aqui faz a afirmação estupenda do seu significado absoluto no propósito [plano] de Deus. E o segundo significado é que ele pode ter dito também que é superior a Abraão. Portanto, não foi o EU SOU de Gênesis 3:14 que provocou a ira dos judeus. Jesus não está alegando que existiu – literalmente – antes de Abraão e nem que é Deus, em João 8:58.

Será que Jesus confundiu tudo depois, dizendo por um lado que somente o Pai é o “único Deus verdadeiro” (17:3, 5:44) e que ele mesmo não era Deus, mas o Filho de Deus (João 10: 36), e por outro lado, que ele, Jesus, é também um ser incriado? Será que ele quis definir seu status dentro das categorias reconhecíveis do Antigo Testamento (João 10:36, Sl 82:6; 2:7), apenas para representar um enigma insolúvel dizendo que ele estava vivo antes do nascimento de Abraão? Se Jesus realmente quisesse falar de sua preexistência e divindade usando a mesma construção textual ele poderia fazê-lo em outros contextos e ter declarado “EU SOU antes de Adão”, ou, “Eu sou antes da humanidade”, não ANTES de Abraão. Não seria mais sensato ler João 8:58 à luz da declaração de Jesus em João 10: 32,33 e 36 e no resto da Escritura?

É um fato bem conhecido que as conversas entre Jesus e os judeus foram muitas vezes de forma contraditória. Em João 8:57 Jesus não tinha, de fato, dito como os judeus pareciam pensar, que ele tinha visto Abraão, mas que Abraão exultou por ver o dia do Messias (v. 56). O patriarca estava esperando surgir na ressurreição no último dia (João 11:24; Mat 8:11) e tomar parte no reino messiânico. Jesus estava afirmando superioridade a Abraão, mas não no sentido que os judeus entenderam.

Uma leitura honesta de “eu sou” em João 8:58 simplifica o entendimento, revelando positivamente que o significado não é “eu sou Deus.” E, também não é, como tantas vezes alegado, o nome divino de Êxodo 3:14, onde o Senhor declarou, “eu sou o ser” ou “Eu sou o aquele que é” (EGO EIMI HO ON, que é traduzido para o Inglês como “Eu sou o Ser”). Jesus aqui em João não defendeu nenhum título.

Além disso, na ocasião da sarça no monte Sinai é registrado que um anjo falava com Moisés do arbusto que ardia em chamas, não o próprio Senhor.

Êxodo 3: 2, afirma: “E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia”. Estêvão, nos registros do NT, em Atos 7:30, declara: “E, completados quarenta anos, apareceu-lhe o anjo do Senhor no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo no meio de uma sarça”. Ele confirma a mesma coisa quando diz aos judeus em Atos 7:53, “vocês, que receberam a Lei por intermédio de anjos, mas não lhe obedeceram”.

Isso torna evidente que era um anjo do Senhor que falava com Moisés como representante de Deus, falando e agindo em nome de Deus na ocasião do Sinai, e não o próprio Deus. Deus estava falando e revelando Sua glória a Moisés, mas o fez através de um anjo.

Palavra final

Depois de João 1:1-3, o texto de João 8:58 é um dos mais usados pelos trinitarianos para defesa da divindade de Jesus e a Trindade. Esse teria sido um dos momentos mais importantes do Novo Testamento, pois aqui Jesus teria decidido revelar sua verdadeira divindade, e alegou ser o “EU SOU” de Êxodo 3:14, a Segunda Pessoa da Trindade, o Deus Filho eterno do Velho Testamento, O ser preexistente. Mas, que, inexplicavelmente, depois de fazer essa estupenda revelação para o povo de Deus, os judeus guardiões da Palavra, ele teve que fugir porque estes queriam matá-lo!

É fato caro leitor que isso tudo aconteceu logo depois que Jesus supostamente deu sua última declaração sobre sua verdadeira divindade! Mas, espere! Os judeus não creram? No Velho Testamento não fala do Jesus preexistente, Deus conosco, Pai eterno e títulos semelhantes? Os Judeus não creram, e até hoje ainda não creem na trindade por qual motivo? É evidente que Jesus nunca deu tal declaração (o EU SOU de Êxodo 3:14).

O que dizer de João 1:1-3?

Nesse momento da leitura é muito comum aos cristãos se agarrarem no prólogo do Quarto Evangelho para se protegerem e por em dúvida os argumentos desse pequeno artigo. No entanto caro amigo leitor, a maioria pode estar tremendamente equivocada. João, certamente, não está fazendo alusão ao princípio de Gênesis em “no princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus“.

Eu vou deixar aqui uma breve palavra sobre João 1:1-3, mas posteriormente vou trazer um artigo mais amplo.

O significado de “no princípio” fala do princípio do Evangelho de Jesus (o novo princípio), o princípio do seu ministério, na Palavra que começou a ser anunciada pelas terras de Israel quando do aparecimento do Messias. Por isso o escritor começa a sua narrativa em tom poético: “No princípio era a Palavra“.

O Evangelho de Marcos também usa – confirmando João – o mesmo termo no mesmo tempo em “o princípio”, que é uma referência ao princípio das boas novas. Veja: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus“, Marcos:1:1, e ele passa imediatamente para João Batista, como no quarto Evangelho.

Lucas usa “no princípio” como referência para a mensagem do Evangelho, mas também volta nos registros do nascimento do Messias, como todos sabemos:

“Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio“. Lucas 1:1-3.

O escritor de 1 João:1:1 usa “o principo” de forma semelhante: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida”.

Mas, se o verbo citado em João 1:1 era Jesus, então, indiscutivelmente, você poderia argumentar que ele seria mesmo Deus, pois a parte final do versículo 1 de João 1, diz que “o verbo era Deus“. As coisas não são tão simples assim. Observe a sequência e perceba como e fácil interpretar o texto sem necessidade de colocar Jesus na eternidade passada.

No princípio era a palavra (a palavra sobre a chegada do Messias sendo anunciada por todas as partes), e a Palavra estava com Deus (Jesus como Mediador – O termo grego permite essa interpretação), e a Palavra era Deus (ora, quem vê o filho, vê o Pai, ou como disse Jesus: “Eu e Pai somos um“. Nada mais justo do que dizer aqui – ainda mais nessa tonalidade incrivelmente poética – que o Verbo era Deus. Não chamamos ele de Deus conosco? Inclusive essa maneira de interpretar a última parte desse verso um pode esclarecer a confissão de Tomé, que aqui também será totalmente desmistificada.

Ao dizer “meu Senhor e meu Deus” (João 20:28) , o INCRÉDULO Tomé passou a crer que Deus estava em Jesus. Ou seja, que ele era realmente o Messias enviado; que Jesus era o Filho de Deus; que ver Jesus era o mesmo que ver o Pai e não que Jesus é Deus.

Veja o que que Jesus respondeu ao próprio Tomé alguns capítulos antes:

“Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.

Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis e o tendes visto.

Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14:5-9.

A confissão de Tomé reforça a última parte do verso 1 em João 1 esclarecendo porque o “verbo era Deus“. Jesus respondeu de forma perfeita: “Quem me vê a mim vê o Pai“.

Portanto caro amigo leitor, o princípio em João 1:1-3, não faz alusão ao princípio de Gênesis. Além disso, é necessário esclarecer que Jesus não estava presente no ato da criação. Fosse assim, Deus não teria dito que criou tudo SOZINHO: “Assim diz o SENHOR, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra”, Isaias 44:24.

A tradução da Almeida Corrigida e Fiel enfatiza mais ainda: “Assim diz o SENHOR, teu redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o SENHOR que faço tudo, que sozinho estendo os céus, e espraio a terra por mim mesmo”.

É importante lembrar aqui que foi o próprio Cristo quem descreveu a criação original como sendo trabalho de Deus, não dele: “Porque naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá”, Marcos 13:19. Compare com Heb 4:4, onde Deus, não Jesus, descansou da obra da criação, “Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia”.

Jesus não existia nos tempos da Eternidade e do Velho Testamento. Observe que a genealogia dele vista por Mateus parte de Abraão e chega até Maria: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mateus 1:1). Depois de passar por toda a descendência do Senhor o escritor alcança a mãe deste, Maria: “E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo” (Mateus 1:16). Aqui Jesus passa a existir.

No Evangelho de Lucas a genealogia parte do próprio Jesus até chegar em Deus: “E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José, e José de Heli” (Lucas 3:23). Depois de tratar de todos os descendentes deste, alcança o próprio Deus. Note que entre Adão e Deus ninguém é citado: “E Cainã de Enos, e Enos de Sete, e Sete de Adão, e Adão de Deus” (Lucas 3:38).

O que isso implica? Simplesmente que Jesus não estava lá, e que passou a existir somente depois que nasceu de uma mulher (Gálatas 4:4).

E mais uma vez: João 1: 1-3 não é uma declaração sobre a criação original do mundo. O escritor do Quarto Evangelho pode ter adotado a linguagem do primeiro “começo” para falar de um novo “começo” nas coisas que aconteceram na vida de Jesus – o princípio da nova criação. Desse modo, o resultado da atividade da Palavra não era que o mundo material existisse, mas que as pessoas recebessem a vida; e esta vida foi a luz que as trevas vistas na história do Evangelho não conseguiram superar. A leitura de João 1: 1-5 é uma sinopse preliminar da história do Evangelho.

Deus seja louvado

(1) FILHO, Valdomiro – Comentário sobre João 8:58

(2) Mentes Bereanas – Resposta ao Leitor – Eu Sou

(3) Autor anônimo – A EXPRESSÃO “EU SOU” PROVA A DIVINDADE DE JESUS?

Anúncios