O Anjo Gabriel  declara para José: “José, filho de Davi, não temas receber Maria como tua esposa, pois a criança que nela foi gerada é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e você lhe colocará o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados “Tudo isto aconteceu para se cumprir o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, Que traduzido é: Deus conosco”, Mateus 1:20-25.

Interessante é que este menino  jamais foi chamado de Emanuel, mas sim de Jesus. Observe o verso 21,

E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”.

Mas, por que então “Emanuel: Deus conosco” é um nome ligado de modo tão íntimo à pessoa de Jesus? Simplesmente porque são  títulos, não nomes. E não é só isso. A profecia garante que  ele tem  mais títulos, como atesta Isaías,

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”, Isaías 9:6

Todos os nomes representam títulos. Seu nome  de nascimento foi Jesus e não Deus Forte ou Deus Conosco e Pai da Eternidade. O “Deus” do título aplicado a Jesus, teria que ser harmonizado em termos de uma igualdade funcional, em oposição a uma identidade de substância. O que quero dizer aqui, é que Jesus agiu como o homem nos desígnios de Deus, e não que ele era o próprio Deus, ou um Deus. Os títulos encontrados dentro do nome (por exemplo, “Deus Forte”) destinam-se para seus devidos sentidos, aqui, tendo Jesus como subordinado responsável agindo nos desígnios de Deus. Na verdade, esses títulos dentro do nome são feitos para louvar e exaltar a Deus, o Pai, e torná-lo presente entre os homens através de seu filho, o que faz com que as palavras de Hebreus 1:3 sejam entendidas perfeitamente: “[Jesus], sendo o resplendor da sua [de Deus] glória, e a expressa imagem da sua pessoa …”. Por isso Jesus disse: “Eu e o Pai somos um”, ou, “Quem vê a mim vê o Pai”.

Assim, as palavras (ou títulos) encontrados no sentido literal do nome se aplicam diretamente ao Messias em um sentido subordinado. A intenção de Isaías 9:6 é louvar o Deus do Messias que realiza grandes coisas por meio do Messias.

Jesus, como o Filho do Homem ocupou o titulo de Deus por causa do domínio, e o que distingue Jesus de outras pessoas é que ele foi escolhido para a missão.  O Filho é a pedra angular do propósito do Pai e motivo de sua criação inteira. Como tal, sua vocação é única. Nos conselhos de Deus só Ele foi escolhido desde o início para ser a solução de Deus para o pecado, a expressão da sua misericórdia e soberano propósito da ordem criada. Além disso, sua obediência sem paralelo a este chamado ainda mais o distingue. A um custo imenso para si mesmo, ele deixou de lado sua posição privilegiada como Filho do rei, vontade própria e todo o direito que lhe é devido, abrindo espaço para o Pai executar seu trabalho através dele. E tudo ele fez como um homem, um homem que aqui nasceu e foi criado. Somente dessa forma, ele é  um modelo credível e sumo sacerdote misericordioso,  que  pode inteiramente se relacionar com os nossos sofrimentos e limitações. Apesar de Deus não poder  ser tentado pelo pecado (Tiago 1:13 e Hebreus 4:15), ele fez isso tudo de  seu Filho,  que foi tentado e não pecou. Jesus passou por uma genuína experiência humana.

A função de Jesus para com a humanidade foi fazer até aquele momento o que só Deus pode fazer: a salvação dos pecadores. Jesus foi o agente de Deus através de quem ele interagiu com o homem. Ninguém jamais poderá negar que Jesus foi o mediador entre Deus e os homens. Quem nasceu em Belém de uma virgem foi o Messias e não o Deus Pai. Por isso, se mantemos um conceito de Jesus quando ele aqui andou como sendo Deus, com a mesma substancia do Deus Pai, destruímos toda a obra de redenção.

Jesus foi o homem aprovado por Deus; em ninguém mais temos essa esperança. Atos dos Apóstolos, por exemplo, descreve Pedro proclamando aos líderes dos judeus: “Este Jesus é a pedra que foi rejeitada por vós, os construtores, que tornou-se a pedra angular. Não há salvação em nenhum outro, pois não há outro nome debaixo do céu dado entre os mortais, pelo qual devamos ser salvos“(Atos 4:11-12). Da mesma forma, no que pode ser o mais antigo de todos os escritos cristãos existentes, a primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses, o Apóstolo escreve: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:8 ). A boa notícia sobre o que Deus fez em Jesus é, de acordo com Paulo, “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16). A partir do fato de que a salvação de Deus veio através de Jesus, os primeiros cristãos passaram a ver Jesus como mais do que apenas um agente da salvação divina. Ele começou  a ser considerado como o Salvador, aquele que realizou o que só Deus poderia fazer. Considere, por exemplo, as seguintes passagens do Novo Testamento:

Lucas 2:11: “. . . para vos nasceu hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Messias, o Senhor “

Filipenses 3:20: “Mas a nossa pátria está nos céus, e é de lá que nós estamos esperando o Salvador, o Senhor Jesus Cristo“.

1 João 4:13-14 “Nisto conhecemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito. E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. “

Os cristãos, que estão tão acostumados a respeito de Jesus como Salvador, e que jamais o perceberam como um homem, um ser humano que aqui viveu, podem facilmente perder o elemento “escandaloso” nesta confissão. Mas um olhar cuidadoso sobre o Antigo Testamento ressalta o escândalo: “Raramente as Escrituras hebraicas referem-se a seres humanos como agentes da salvação divina”. Na grande maioria dos textos,  Deus, e só Deus, é o verdadeiro Salvador. Por exemplo, por meio de Isaías, Deus diz:

Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti. Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e a Seba em teu lugar. (Is 43:2-3).

Ou considere a abertura do Salmo 62:

Eu espero em silêncio diante de Deus, pois a minha salvação vem dele. Só Ele é meu rochedo e minha salvação, minha fortaleza onde eu nunca serei abalado“. (Salmo 62:1-2, NTLH)

Assim, os primeiros cristãos, a maioria dos quais teriam sido familiarizados com estas e muitas outras passagens do Antigo Testamento que proclamam a Deus como o único Salvador, vieram a atribuir o título de Salvador para Jesus. No entanto, se Jesus era o Salvador, e só Deus é o Salvador, o que isso implica sobre o próprio Jesus?

Quem é o Salvador? 

Então, dado o testemunho coerente do Antigo Testamento no sentido de que só Deus é o Salvador, o movimento de Jesus como Salvador para divino Senhor era óbvio, no entanto era novo.

Como foi citado anteriormente, José foi nomear o filho de Maria como “Jesus.” Por quê? Porque “ele salvará o seu povo dos seus pecados.” Há um jogo de palavras aqui que não pode  ser perdido facilmente. O nome real de Jesus em aramaico era Yeshua , ou em hebraico, Josué . Este nome significa, em qualquer língua semítica, “O SENHOR é a salvação.” Então, o filho de Maria será chamado de “O Senhor é a salvação.” Dado o fato de que Yeshua/Joshua era um nome popular no tempo de Jesus, não podemos concluir que com relação a Jesus este nome possa ser identificado como divino. No entanto, o anjo disse a José que Jesus iria salvar Israel de seus pecados. Daí se pode produzir um silogismo, pois lembramos que o Anjo Gabriel ao anunciar o nascimento do Senhor adiciona uma linha de Isaías 7:14: ” Deus está conosco“. Deus veio na pessoa de Jesus, mas Jesus mesmo é seu filho, aquele que suportou seu nome, e não o próprio Deus. Agora está claro; “… a virgem conceberá e dará à luz um filho, a ele porás o nome de Emanuel”, que significa: Jesus vai cumprir a promessa de Isaías. Ele será, não só o Salvador, mas aquele que é Emanuel: Deus conosco. Isso não deve ser interpretado literalmente, que  Jesus era o Deus Todo-Poderoso, mas que Deus agia através de Jesus pelo poder do Espírito Santo. Na verdade, a pessoa de Jesus, como Filho direto de Deus, nos possibilita entender a expressão principal que é  DEUS CONOSCO. Deus não enviava  mais profetas, mas ele mesmo veio nos resgatar  através do seu Filho. Ou seja, Deus estar em Cristo, como atesta Paulo em II Cor 5:19, não deve  significar que Cristo foi o próprio Deus em pessoa. Assim,  e dentro desse contexto, a natureza de Jesus deve ser definida à luz de seu papel como Salvador. Se Jesus veio para nos regatar, então ele tinha que ser plenamente humano. Somente dessa maneira ele poderia levar a pena para o pecado humano.

Portanto, a mais alta expressão do amor de Deus para nós é a doação de seu Filho (João 3:16). O amor do Filho para o Pai é mostrado na sua oferta obediente de si mesmo (João 14:31). E para quem insiste na divindade mística, transcendental, celestial ao extremo, que exclui o Jesus descendente de Davi, e admite ter sido ele inteiramente o mesmo logos eterno na terra, digo: o sangue de Jesus ainda é o resgate exigido e fornecido por Deus pelos nossos pecados. Como que a supremacia do Filho poderia ser revelada em nós através de meios como estes se ele fosse o Deus Todo-Poderoso?

Deus, que nos ama perfeitamente, teve de suportar e assistir a agonia de seu Filho na cruz, o objeto mais digno de seu amor. Certamente não há dúvida de até que ponto Deus sofreu. O fato de que o Filho sofreu também, como alguém que não seja Deus, não diminui em nada o que ele era. A alegria e satisfação maior é saber que alguém que fez parte deste mundo, nasceu de mulher, Jesus o Messias prometido, foi capaz de expiar o pecado e encontrar a liberação de suas consequências.

Não foi o Pai quem foi  crucificado, mas o Filho

Onde a Bíblia nos ensina que Deus mesmo, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó iria morrer pelos nossos pecados? Deus é imortal e não pode morrer (1 Timóteo 1:17, Lucas 20:36). Em contraste, Jesus só foi feito imortal após a sua ressurreição.

Como ele deu a sua vida, Jesus clamou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste“. Portanto, quem ficou na cruz a partir desse ponto não pode ter sido Deus. Se Jesus era de fato o centro pessoal “divino”, ou seja, o homem Deus todo poderoso, também com a mesma natureza que tinha antes de todas as coisas, sendo ali na cruz o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, não sendo mesmo o último Adão, então este abandono não quer dizer nada.

Portanto, o pecado só poderia ser superado por Deus se alguém na forma de um homem viesse a ser o resgatador. E vale dizer aqui: nenhum de nós tem a vantagem de uma “existência” pessoal na eternidade antes do nosso nascimento, só Jesus. Ou seja, uma existência através da promessa. Por isso ninguém mais neste mundo tem a primazia como Salvador e intercessor.

Sendo assim, a realização de Jesus e o sacrifício são ainda mais notáveis em virtude de suas limitações humanas. Ele é o homem unicamente normal, o exemplo vivo de uma humanidade espiritualmente madura, que nos brindou com a ressurreição, também nossa e futura, e a transformação do nosso corpo. Assim, longe de minimizar o problema do pecado, seu exemplo é mais inspirador, dado o seu sucesso; e com certeza, tudo isso com a ausência de qualquer vantagem oculta.

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